Durante muito tempo, os jogos de extração permaneceram como uma experiência voltada para um público bastante específico. A ideia de entrar em uma partida, explorar mapas repletos de ameaças e escapar antes de perder tudo conquistado sempre foi capaz de gerar momentos de enorme tensão, mas normalmente aparecia associada a cenários militares ou de ficção científica. Com o crescimento desse gênero nos últimos anos, ficou evidente que havia espaço para novas interpretações dessa fórmula.
É justamente nesse cenário que Mistfall Hunter encontra sua oportunidade.
Em vez de apostar em armas de fogo, equipamentos táticos e combates modernos, o novo título da Bellring Games transporta a estrutura dos extraction games para um universo de fantasia medieval dominado por espadas, magia, criaturas fantásticas e ruínas tomadas pela escuridão. A proposta não reinventa as regras do gênero, mas muda completamente a forma como elas são vivenciadas.
Depois de horas explorando as incursões no PS5, a sensação é de que Mistfall Hunter entende muito bem aquilo que torna esse estilo de jogo tão viciante. A tensão de carregar equipamentos valiosos, decidir até onde vale a pena continuar explorando e finalmente encontrar um ponto seguro para escapar continua presente durante toda a experiência. Ao mesmo tempo, a ambientação e o foco no combate corpo a corpo ajudam o jogo a construir uma identidade própria em um segmento cada vez mais competitivo.
Ainda é cedo para dizer se Mistfall Hunter conseguirá se estabelecer entre os principais nomes do gênero, mas suas primeiras horas mostram um projeto com boas ideias e uma base sólida para evoluir ao longo do tempo.
Fantasia medieval dá personalidade ao jogo

A maior qualidade de Mistfall Hunter aparece antes mesmo do primeiro confronto.
Embora sua estrutura siga a mesma lógica de outros jogos de extração, a decisão de abandonar completamente o cenário militar faz uma enorme diferença na maneira como cada incursão acontece.
Aqui não existem rifles de precisão, explosivos ou equipamentos de alta tecnologia. O combate gira em torno de espadas, lanças, escudos, cajados e habilidades mágicas, transformando cada encontro em uma disputa muito mais próxima e estratégica.
Essa mudança altera completamente o ritmo das partidas.
Enquanto muitos jogos do gênero costumam recompensar reflexos rápidos e precisão com armas de fogo, Mistfall Hunter valoriza posicionamento, leitura dos movimentos do adversário e administração cuidadosa das habilidades disponíveis. Em diversos momentos, avançar sem pensar significa apenas desperdiçar recursos ou colocar em risco todo o equipamento conquistado durante a incursão.
É justamente essa sensação de vulnerabilidade que mantém a experiência interessante.
Como todo bom extraction game, Mistfall Hunter faz o jogador pensar constantemente naquilo que está carregando. Quanto melhor o equipamento encontrado durante a exploração, maior se torna a pressão para conseguir escapar vivo. Essa tensão funciona porque a punição é clara: morrer significa perder praticamente tudo o que foi conquistado naquela partida.
As classes são o grande diferencial da experiência

Boa parte da personalidade de Mistfall Hunter também passa pelo sistema de classes.
Em vez de oferecer apenas pequenas diferenças de atributos, o jogo apresenta seis arquétipos bastante distintos: Mercenary, Sorcerer, Blackarrow, Shadowstrix, Seer e Withered Knight. Cada um deles possui armas próprias, habilidades exclusivas e diferentes possibilidades de evolução por meio de árvores de talentos, equipamentos e especializações.
Na prática, isso significa que escolher uma classe não muda apenas a forma de causar dano, mas influencia diretamente a maneira como cada incursão é enfrentada.
O Mercenário, por exemplo, aposta em uma abordagem equilibrada, alternando entre espada e escudo ou um pesado martelo de guerra. Já o Feiticeiro concentra seu potencial em magias elementais e ataques à distância, enquanto a Flechanegra privilegia precisão e controle do campo de batalha com diferentes tipos de flechas.
Para quem prefere mobilidade, a Sombrastrix assume naturalmente o papel de assassina, utilizando furtividade e explosões rápidas de dano para eliminar adversários antes que eles consigam reagir. A Vidente, por sua vez, oferece um estilo mais voltado ao suporte, embora também possa ser construída para atuar em confrontos corpo a corpo. Por fim, o Cavaleiro Decaído ocupa a linha de frente com armas pesadas, contra-ataques e habilidades de controle, tornando-se uma opção interessante para jogadores que preferem um combate mais estratégico.
O aspecto mais interessante desse sistema é que nenhuma dessas classes parece existir apenas para cumprir um papel tradicional de RPG. Todas apresentam estilos bastante diferentes entre si, incentivando o jogador a experimentar novas abordagens conforme aprende as mecânicas do jogo.
Durante a análise, comecei o tutorial utilizando a Shadowstrix, equivalente ao arquétipo clássico de assassino. Apesar da boa mobilidade da classe, foi o Withered Knight que acabou me conquistando durante as incursões seguintes. Seu ritmo mais cadenciado, aliado ao alcance das armas e às possibilidades de contra-atacar os inimigos, tornou os confrontos mais satisfatórios do que simplesmente depender de velocidade ou ataques sucessivos. Essa preferência acabou influenciando toda a minha experiência nas primeiras horas de jogo.
O combate recompensa estratégia, não impulsividade

Se a ambientação é responsável por diferenciar Mistfall Hunter de boa parte dos jogos de extração disponíveis atualmente, é o combate que faz essa identidade ganhar forma durante as incursões.
Logo nas primeiras partidas, fica claro que avançar contra qualquer inimigo sem planejamento dificilmente termina bem. Os confrontos exigem atenção ao posicionamento, ao tempo das habilidades e, principalmente, à leitura dos movimentos dos adversários. Em vez de incentivar uma postura agressiva o tempo inteiro, o jogo frequentemente recompensa quem observa o cenário antes de agir.
Essa característica ficou evidente durante minha experiência com o Withered Knight. Embora a classe utilize equipamentos pesados e ataques mais lentos, ela transmite uma agradável sensação de impacto a cada golpe conectado. O sistema de contra-ataques e o foco no controle de espaço fazem com que cada batalha pareça menos uma disputa por velocidade e mais um exercício de paciência.
Essa escolha combina muito bem com a proposta do jogo.
Em diversos momentos encontrei inimigos claramente acima do meu nível de equipamento. A reação mais natural seria insistir no combate para tentar garantir um loot melhor, mas Mistfall Hunter constantemente lembra que sobreviver costuma ser mais importante do que vencer todas as batalhas.
Essa talvez seja uma das melhores decisões de design do jogo.
Nem todo inimigo existe para ser derrotado naquele momento. Em determinadas situações, simplesmente contornar um confronto e continuar explorando o mapa representa a escolha mais inteligente. É um tipo de liberdade que fortalece a sensação de estar participando de uma expedição perigosa, e não apenas seguindo uma sequência de combates obrigatórios.
A tensão cresce conforme o inventário melhora

Mistfall Hunter entende perfeitamente que o verdadeiro protagonista de um extraction game não é o combate.
É o risco.
Durante uma incursão, derrotar inimigos representa apenas parte do objetivo. O verdadeiro desafio começa quando equipamentos mais valiosos passam a ocupar espaço no inventário.
Quanto melhor o loot encontrado, maior passa a ser a pressão para escapar vivo.
Essa sensação aparece de forma bastante natural ao longo das partidas. Depois de encontrar equipamentos de raridade superior, passei a analisar o mapa com muito mais cuidado antes de decidir qual caminho seguir. Continuar explorando poderia render recompensas ainda melhores, mas também aumentava significativamente as chances de perder tudo caso algum confronto desse errado.
É exatamente esse conflito entre ganância e sobrevivência que mantém cada incursão interessante.
O jogo não obriga o jogador a permanecer no mapa por um tempo específico nem cria objetivos artificiais para prolongar a partida. A decisão de continuar explorando ou iniciar imediatamente a extração pertence exclusivamente ao jogador.
Essa liberdade faz com que cada partida tenha seu próprio ritmo.
Em algumas ocasiões, bastaram poucos minutos para considerar que o risco já não compensava uma exploração mais longa. Em outras, a possibilidade de abrir apenas mais um baú parecia tentadora o suficiente para permanecer no mapa um pouco mais.
Mistfall Hunter consegue transformar decisões aparentemente simples em momentos de verdadeira tensão justamente porque a punição por um erro é significativa: morrer significa abandonar praticamente todo o equipamento conquistado naquela incursão.
Progressão incentiva o jogador a continuar evoluindo
Entre uma incursão e outra, Mistfall Hunter oferece um sistema de progressão que amplia a sensação de evolução constante.
O acampamento funciona como a principal base de operações do jogador. É ali que diferentes sistemas começam a ser desbloqueados e onde o personagem passa a desenvolver suas capacidades ao longo das partidas.
Embora a estrutura seja relativamente familiar para quem já conhece RPGs de ação, Mistfall Hunter adiciona elementos suficientes para incentivar o retorno constante às incursões.
Além das árvores de talentos que permitem especializar cada classe de maneiras diferentes, o jogo também oferece equipamentos de raridades variadas, habilidades específicas e diferentes possibilidades de construção do personagem. Essa variedade impede que a progressão fique restrita apenas ao aumento de atributos, permitindo experimentar estilos de jogo bastante distintos mesmo dentro da mesma classe.
Outro detalhe interessante é o bolso seguro, mecanismo que permite proteger determinados itens durante uma incursão. Em um gênero onde perder equipamentos faz parte da experiência, esse pequeno recurso ajuda a reduzir parte da frustração sem eliminar a sensação de risco que define o restante da aventura.
Também chama atenção a presença de uma futura Casa de Leilões, ainda indisponível durante minha experiência. Embora não tenha sido possível avaliar seu funcionamento, sua existência indica que a economia entre jogadores deverá ganhar um papel mais relevante conforme o jogo evoluir. Como o sistema ainda não estava acessível, qualquer conclusão além dessa seria apenas especulação.
Explorar vale tanto quanto lutar

Outro aspecto que contribui para manter as partidas interessantes é a maneira como Mistfall Hunter distribui objetivos pelos mapas.
Além da busca por equipamentos, as incursões apresentam pequenas missões que incentivam o jogador a visitar diferentes áreas, investigar pontos específicos e enfrentar determinados inimigos.
Na prática, essas atividades ajudam a quebrar a sensação de que toda partida existe apenas para coletar loot.
Durante minhas primeiras horas, elas funcionaram como um incentivo natural para conhecer melhor o mapa e compreender as mecânicas do jogo. Em vez de simplesmente correr até os baús mais próximos, passei a alternar momentos de exploração com objetivos secundários, tornando cada incursão um pouco mais dinâmica.
Ao mesmo tempo, Mistfall Hunter evita transformar essas tarefas em uma sequência linear de missões. A qualquer momento surge a necessidade de interromper um objetivo porque um inimigo mais forte apareceu pelo caminho ou porque permanecer naquela região deixou de parecer seguro.
Essa imprevisibilidade faz parte da identidade do jogo.
Mesmo quando nenhum outro jogador cruza seu caminho, nunca existe a certeza de que a extração acontecerá sem imprevistos. Basta um confronto inesperado, uma escolha ruim de rota ou alguns segundos de distração para colocar toda a incursão em risco.
Essa sensação constante de vulnerabilidade talvez seja o maior acerto de Mistfall Hunter até aqui.
Nem tudo funciona com a mesma eficiência
Mistfall Hunter acerta ao construir uma experiência de extração baseada em tensão constante, mas isso não significa que todos os seus sistemas causem o mesmo impacto.
A curva de aprendizado é, provavelmente, o aspecto que mais pode dividir opiniões.
Embora o tutorial apresente os fundamentos do combate e da exploração, compreender de fato o ritmo das incursões exige bem mais do que os primeiros minutos de jogo. Saber quando vale a pena enfrentar um inimigo, reconhecer o momento certo para abandonar uma área e decidir até onde compensa arriscar o equipamento conquistado são decisões que acabam sendo aprendidas durante as próprias partidas.
Para jogadores acostumados com o gênero, essa adaptação faz parte da proposta. Já quem está tendo o primeiro contato com jogos de extração pode levar algum tempo até entender que sobreviver costuma ser mais importante do que eliminar todos os inimigos encontrados pelo caminho.
Também tive a impressão de que os primeiros confrontos contra outros personagens utilizam adversários controlados pela inteligência artificial. Em alguns momentos, o comportamento desses inimigos parecia muito diferente daquele esperado em disputas contra jogadores reais. Como o jogo não confirma oficialmente esse funcionamento, essa observação deve ser encarada apenas como uma percepção obtida durante as partidas realizadas para esta análise, e não como uma característica confirmada.
Além disso, alguns recursos presentes na interface ainda não puderam ser avaliados por completo. A Casa de Leilões, por exemplo, já aparece disponível no acampamento, mas permanecia inacessível durante a experiência analisada. Por esse motivo, não há elementos suficientes para julgar seu impacto sobre a progressão ou a economia do jogo.
Nada disso compromete a qualidade da experiência, mas evidencia que Mistfall Hunter concentra seus melhores momentos justamente naquilo que faz dentro das incursões. É durante a exploração, no gerenciamento do inventário e na tensão de decidir entre continuar avançando ou garantir a extração que o jogo demonstra com mais clareza suas principais qualidades.
Nada disso compromete a qualidade da experiência, mas evidencia que Mistfall Hunter concentra seus melhores momentos justamente naquilo que faz dentro das incursões. É durante a exploração, no gerenciamento do inventário e na tensão de decidir entre continuar avançando ou garantir a extração que o jogo demonstra com mais clareza suas principais qualidades.
Somado ao preço de lançamento de R$ 83,99 na PlayStation Store — reduzido para R$ 75,59 para assinantes do PlayStation Plus —, o jogo apresenta um custo-benefício bastante interessante para quem deseja experimentar o gênero de extração sem investir o valor normalmente cobrado pelos lançamentos mais recentes.
Mistfall Hunter adapta a fórmula dos jogos de extração para um universo de fantasia medieval com competência. A combinação entre combates estratégicos, variedade de classes e a constante tensão de arriscar equipamentos valiosos cria uma experiência envolvente, que recompensa planejamento muito mais do que impulsividade. Embora a curva de aprendizado possa afastar alguns jogadores no início, o jogo entrega uma base sólida e encontra identidade própria dentro de um gênero cada vez mais competitivo.
Pontos fortes
- Ambientação de fantasia medieval dá identidade ao gênero de extração.
- Combate estratégico recompensa posicionamento e paciência.
- Seis classes oferecem estilos de jogo bastante distintos.
- Progressão incentiva experimentar novas builds.
- Boa sensação de tensão durante as incursões e extrações.
Pontos fracos
- Curva de aprendizado pode intimidar iniciantes.
- Alguns sistemas disponíveis no acampamento não puderam ser avaliados durante a análise.
- Comportamento de alguns adversários nas primeiras partidas pode reduzir a sensação de desafio.
Agradecimento
CasaPlayStation agradece à Bellring Games pelo envio da chave de Mistfall Hunter para PlayStation 5, tornando esta análise possível.
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