Há algo muito agradável na forma como Duskfade apresenta seu mundo. Não é apenas a estética colorida ou a presença de uma aventura fantástica envolvendo relógios, engrenagens e magia. Existe uma intenção clara de recuperar um tipo de experiência que foi muito comum nos jogos de plataforma 3D do PlayStation 2, quando atravessar um mundo cheio de segredos era tão importante quanto derrotar o próximo chefe.
A Weird Beluga sabe exatamente de onde está tirando suas referências. Kingdom Hearts, Jak and Daxter e Ratchet & Clank estão entre as influências mais perceptíveis, mas Duskfade não tenta reproduzir nenhum deles diretamente. Em vez disso, combina elementos conhecidos para construir uma aventura própria, com uma identidade visual bastante particular e um protagonista que funciona melhor justamente quando o jogo deixa o jogador explorar livremente.
Publicado pela Fireshine Games, Duskfade coloca o jogador no controle de Zirian, um jovem aventureiro envolvido em uma jornada para encontrar sua irmã e entender o que aconteceu com o mundo depois que a misteriosa Torre do Relógio mergulhou tudo em uma noite eterna.
É uma premissa simples, mas suficiente para sustentar uma aventura que encontra seus melhores momentos quando transforma movimentação e exploração em suas principais ferramentas.
Uma aventura construída ao redor do tempo

Zirian não parte sozinho. Ao longo da jornada, ele conta com um pequeno cuco mecânico criado por Alliera, sua irmã. O companheiro rapidamente se torna uma das características mais simpáticas da dupla e também desempenha funções importantes durante a exploração.
A busca por Alliera leva Zirian por diferentes regiões, cada uma construída em torno de uma identidade própria. O jogo alterna ambientes naturais e estruturas mecânicas, criando uma combinação curiosa entre fantasia e tecnologia que se torna ainda mais interessante conforme novos lugares são apresentados.
A Cidade Ponteiro, por exemplo, funciona como um ponto de encontro entre diferentes momentos da aventura. A gigantesca Torre do Relógio suspensa por correntes, as engrenagens espalhadas pelo cenário e a iluminação contrastando com o céu escuro dão ao local uma aparência que poderia facilmente pertencer a um RPG de ação japonês.
É uma direção que demonstra personalidade. Duskfade não depende apenas de referências nostálgicas para chamar atenção.
A história também tenta dar significado aos mundos que Zirian visita. A jornada aborda perda, amadurecimento, medo e a dificuldade de lidar com acontecimentos que estão além da compreensão dos personagens. Nem tudo funciona com a mesma intensidade, mas existe uma preocupação evidente em fazer com que a aventura tenha algo a dizer além de simplesmente levar o protagonista até o próximo objetivo.
Essa abordagem é acompanhada por personagens carismáticos e diálogos que alternam momentos de humor com passagens mais sérias. O resultado é uma narrativa leve na maior parte do tempo, mas que consegue encontrar espaço para momentos emocionais.
O relacionamento entre Zirian e Alliera é especialmente importante nesse sentido. É a motivação pessoal do protagonista que mantém a aventura funcionando mesmo quando a trama envolvendo a Torre do Relógio e os Mestres Relojoeiros se torna mais difícil de acompanhar.
Quando simplesmente se movimentar já é divertido

Se existe uma característica que define Duskfade, ela é a movimentação.
Zirian possui um conjunto de habilidades que torna a travessia dos cenários bastante agradável. O personagem pode correr, realizar salto duplo, avançar no ar, deslizar, agarrar determinadas superfícies e utilizar um gancho para alcançar lugares que inicialmente parecem inacessíveis.
O mais importante é que essas ações não parecem isoladas. Elas se complementam.
É possível saltar, avançar no ar e imediatamente utilizar o gancho para alcançar uma plataforma distante. Em outro momento, uma habilidade adquirida anteriormente pode transformar uma área aparentemente sem interesse em um novo caminho para explorar.
Essa fluidez faz com que atravessar os cenários seja, por si só, uma recompensa.
É justamente aqui que Duskfade consegue reproduzir melhor aquela sensação dos clássicos de plataforma 3D. Existe prazer em simplesmente sair do caminho principal para descobrir o que existe atrás de uma estrutura, no alto de uma plataforma ou em uma área escondida do mapa.
Os colecionáveis reforçam essa proposta. Moedas, itens especiais e outros segredos estão espalhados pelos ambientes e dão motivos para prestar atenção aos detalhes. Algumas áreas também só podem ser acessadas depois que Zirian adquire determinadas habilidades, incentivando o retorno a locais já visitados.
A estrutura funciona bem porque não transforma a exploração em uma obrigação. Quem quiser seguir diretamente pela história consegue fazer isso, enquanto jogadores mais curiosos podem dedicar tempo procurando tudo o que os cenários escondem.
O problema está na dificuldade.
Duskfade oferece a Zirian ferramentas suficientemente boas para criar sequências de plataforma muito mais elaboradas do que aquelas encontradas em boa parte da aventura. Muitos percursos são relativamente simples e raramente exigem que o jogador domine completamente as possibilidades de movimentação.
Isso é uma pena porque existe uma diferença perceptível entre a qualidade dos controles e aquilo que o design dos níveis exige deles.
Quando o jogo finalmente combina suas habilidades de maneira mais criativa, fica evidente o potencial que poderia ter sido explorado com mais frequência.
O combate acompanha, mas não alcança a movimentação

O combate segue uma filosofia parecida: rápido, acessível e integrado à movimentação.
Zirian utiliza sua espada em forma de chave para realizar ataques rápidos e também conta com recursos capazes de atingir inimigos à distância. A esquiva complementa o conjunto e possui uma característica interessante: quando executada no momento correto, pode interromper brevemente o fluxo do tempo.
É uma mecânica simples, mas adequada ao universo de Duskfade.
Os golpes respondem bem aos comandos e não existe aquela sensação de que o protagonista demora para executar aquilo que foi solicitado. Zirian consegue entrar e sair das batalhas rapidamente, o que evita que o combate interrompa completamente o ritmo da exploração.
O problema é que os inimigos comuns não aproveitam muito bem esse sistema.
Na maioria das situações, eles não oferecem resistência suficiente para obrigar o jogador a experimentar diferentes possibilidades. O resultado é um combate funcional, mas que pode se tornar previsível ao longo da campanha.
Não chega a ser ruim. Pelo contrário, é agradável de controlar. O que falta é profundidade.
Duskfade possui movimentação suficiente para construir batalhas mais dinâmicas, mas nem sempre encontra motivos para exigir que o jogador use todas as ferramentas disponíveis.
Os chefes são uma exceção importante.
É nesses confrontos que o jogo demonstra uma criatividade que não aparece com tanta frequência nas batalhas comuns. Em vez de simplesmente apresentar inimigos maiores com mais pontos de vida, alguns encontros exigem que Zirian compreenda o comportamento do adversário e utilize o cenário e suas habilidades de movimentação para criar oportunidades.
Esses momentos funcionam justamente porque quebram a estrutura convencional do combate.
Os melhores chefes fazem o jogador alternar entre atacar, se movimentar e observar o ambiente. A sensação é muito mais próxima daquilo que Duskfade consegue fazer quando está no seu melhor, misturando plataforma e ação em vez de tratar os dois elementos como sistemas separados.
Uma câmera que ainda precisa de ajustes

Os controles de Zirian são simples de compreender e não demoram para se tornar naturais. O problema não está no personagem, mas naquilo que acontece ao redor dele.
A câmera é o principal ponto de atrito durante a aventura.
Em áreas mais abertas, isso não costuma representar um problema significativo. Porém, quando o cenário fica mais fechado ou exige precisão, a câmera pode se posicionar de maneira pouco conveniente e dificultar a leitura do que está acontecendo.
Em um jogo no qual a posição de uma plataforma pode determinar se um salto será bem-sucedido, esse tipo de situação incomoda mais do que deveria.
É uma limitação conhecida dos jogos de plataforma 3D, mas que continua sendo especialmente frustrante quando o restante dos controles funciona tão bem.
Um dos maiores destaques está na direção de arte

Duskfade talvez seja mais impressionante quando o jogador simplesmente para para observar seus cenários.
A Weird Beluga criou um universo que combina personagens estilizados com ambientes que conseguem transmitir escala. As estruturas mecânicas gigantescas convivem com florestas, montanhas, desertos e regiões subaquáticas, enquanto o conceito da noite eterna dá uma unidade visual à aventura.
O contraste entre os tons mais escuros do céu e as áreas iluminadas ajuda a criar uma atmosfera própria. Relógios e engrenagens aparecem constantemente, mas não parecem estar ali apenas para reforçar a temática. Eles fazem parte da construção daquele mundo.
Esse cuidado também aparece nos personagens.
Zirian tem um visual que combina com a proposta cartunesca da aventura e suas animações contribuem bastante para transmitir personalidade. O pequeno companheiro mecânico, por sua vez, complementa a dupla e evita que o protagonista pareça estar sozinho durante grande parte da jornada.
É uma direção de arte que funciona tanto para quem procura nostalgia quanto para quem está conhecendo Duskfade sem qualquer relação com os clássicos que serviram de inspiração.
A trilha sonora segue uma linha semelhante.
As músicas conseguem acompanhar os momentos de aventura sem transformar todos os cenários em uma sucessão de temas grandiosos. Há espaço para composições mais contemplativas, especialmente nas passagens relacionadas à história de Zirian e Alliera.
A presença de elementos orquestrados combinados a sons eletrônicos também combina com a mistura entre fantasia e tecnologia que define o universo do jogo.
Duskfade sabe o que quer ser

O maior mérito de Duskfade talvez esteja justamente em sua clareza de propósito.
A Weird Beluga não parece interessada em reinventar o gênero. O objetivo é recuperar uma fórmula que funcionava muito bem: um protagonista carismático, mundos coloridos, habilidades que permitem explorar novas áreas, colecionáveis espalhados pelos cenários, combates em tempo real e uma aventura que alterna momentos de humor e emoção.
E isso funciona.
O jogo consegue ser acessível sem parecer completamente desprovido de desafios. Também oferece liberdade suficiente para que a exploração tenha valor, mesmo quando seguir diretamente pelo objetivo principal é perfeitamente possível.
Ainda assim, fica a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido levadas mais longe.
O combate poderia exigir mais do jogador. Os desafios de plataforma poderiam aproveitar melhor o conjunto de movimentos de Zirian. E a câmera precisaria de mais refinamento para acompanhar a qualidade dos controles.
São problemas que impedem Duskfade de alcançar todo o seu potencial, mas não são suficientes para tirar o mérito de uma aventura que entende muito bem o que torna esse gênero tão divertido.
Recebemos Duskfade para PlayStation 5 antecipadamente para a realização desta review e agradecemos à Fireshine Games pela oportunidade e confiança em nosso trabalho.
Duskfade é uma aventura de plataforma 3D divertida, bonita e carismática, que resgata com muita personalidade o espírito dos clássicos do PlayStation 2. A movimentação fluida de Zirian, a exploração envolvente e a direção de arte inspirada são seus maiores destaques, enquanto os chefes mostram todo o potencial do combate. Embora aposte em desafios e plataformas mais acessíveis, e apresente breves ajustes de câmera, o conjunto funciona muito bem e entrega uma jornada leve, nostálgica e imperdível para quem sente falta do gênero.
Duskfade
Weird Beluga-
PlataformaPlayStation 5, PC, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC
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DesenvolvedoraWeird Beluga
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Lançamento13 de agosto de 2026
