Levar Hellraiser para os videogames exige mais do que colocar os Cenobitas diante do jogador. É preciso reproduzir o desconforto, a violência e a atmosfera perturbadora que definem a obra de Clive Barker. Em boa parte da campanha, Clive Barker’s Hellraiser: Revival consegue fazer isso.
Desenvolvido pela Saber Interactive, o jogo apresenta uma história inédita no universo da franquia, com o retorno de Doug Bradley ao papel de Pinhead. No PlayStation 5, a aventura combina ação em primeira pessoa, furtividade e gerenciamento de recursos, além de dar à Caixa de LeMarchand um papel importante nos combates.
Depois de aproximadamente nove horas de campanha, minha impressão com Clive Barker’s Hellraiser: Revival é positiva. A ambientação e a direção de arte se destacam, mas algumas limitações no combate, a falta de conteúdo para revisitar a aventura e problemas pontuais de áudio impedem que o resultado seja ainda melhor.
Um mergulho no universo de Hellraiser

A história acompanha Aidan Lynch, que precisa resgatar sua namorada, Sunny, após a abertura de uma misteriosa caixa invocar os Cenobitas. Para encontrá-la, ele faz um pacto com Pinhead e acaba envolvido nos planos de um culto que pretende trazer essas criaturas para o mundo dos vivos.
A narrativa funciona melhor quando explora os elementos que diferenciam Hellraiser de outras franquias de terror. Violência gráfica, mutilações e temas relacionados a prazer, dor e obsessão fazem parte da experiência, que não tenta suavizar o conteúdo da obra original.
Documentos, gravações e arquivos espalhados pelos cenários ajudam a contextualizar o culto e outros personagens. Embora a história não seja o aspecto mais marcante do jogo, ela oferece uma aventura própria, sem depender de uma adaptação direta dos filmes.
Vale o aviso: o jogo aborda temas pesados, incluindo uso de drogas, suicídio, violência sexual, nudez e sadomasoquismo. Esses elementos aparecem ao longo da campanha e devem ser considerados antes de começar.
Combate e sobrevivência

Em primeira pessoa, Clive Barker’s Hellraiser: Revival utiliza munição limitada, armas corpo a corpo com durabilidade e um inventário restrito para incentivar o gerenciamento de recursos. É preciso escolher o que carregar, fabricar itens de cura e decidir quando vale a pena gastar munição. Essa estrutura funciona bem e mantém a sobrevivência relevante durante a campanha.
A furtividade também é bastante útil, principalmente na dificuldade normal, já que os inimigos não apresentam uma inteligência artificial particularmente avançada. Quando o confronto direto é inevitável, porém, o combate corpo a corpo pode parecer travado. Leva algum tempo para se acostumar às esquivas e aos ataques direcionados a partes específicas dos adversários.
As armas de fogo respondem melhor, e as opções de assistência de mira ajudam a adaptar os controles às preferências do jogador.
O grande diferencial é a Caixa de LeMarchand, que permite lançar objetos cortantes e pesados contra os inimigos, além de desbloquear habilidades especiais durante a campanha. As Hellchains, por exemplo, invocam correntes infernais capazes de atingir vários adversários de uma só vez.
Gostei bastante da mecânica, que combina com o universo da franquia e oferece alternativas interessantes durante os combates. A ressalva é que algumas habilidades poderiam ser mais bem aproveitadas. O poder relacionado ao fogo depende de chamas próximas, enquanto as Hellchains são liberadas relativamente tarde.
Uma campanha que poderia render mais

A campanha dura cerca de oito a 12 horas, e terminei minha primeira jornada em aproximadamente nove. A duração é adequada para a proposta, mas senti falta de motivos para continuar explorando depois dos créditos.
O jogo possui dois finais e diversos documentos que expandem a história, mas não oferece um New Game Plus para recomeçar mantendo os equipamentos conquistados. Também seria interessante encontrar arquivos adicionais dedicados aos Cenobitas, com imagens e informações sobre essas criaturas.
A ausência desses recursos não compromete a campanha principal, mas reduz sua longevidade. Com cenários tão detalhados e mecânicas que poderiam render novas possibilidades, Hellraiser: Revival merecia oferecer mais motivos para revisitar o Labirinto.
Direção de arte e problemas de áudio

Visualmente, Clive Barker’s Hellraiser: Revival é um dos seus maiores acertos. A campanha alterna entre uma casa de swing movimentada, corredores subterrâneos claustrofóbicos, um cemitério e os ambientes distorcidos do Labirinto. A iluminação, os detalhes dos cenários e a aparência dos Cenobitas ajudam a preservar a identidade visual da franquia.
O sangue deixado pelos inimigos mortos, por outro lado, parece artificial em algumas ocasiões, destoando do cuidado aplicado ao restante da apresentação.
O áudio também merece atenção. Durante minha experiência no PS5, utilizando um headset Sony Pulse 3D, encontrei problemas de posicionamento espacial: alguns inimigos pareciam estar muito próximos, embora estivessem a vários metros de distância. Também houve situações em que adversários continuavam falando depois de morrer e outras em que o som desapareceu após determinados confrontos.
Essas falhas não impediram meu progresso, mas prejudicaram a imersão em alguns momentos. Como o áudio tem papel importante na percepção das ameaças em um jogo de terror, espero que a Saber Interactive corrija esses problemas em uma atualização.
Ao menos a localização merece elogios. As legendas em português do Brasil preservam a terminologia do universo de Clive Barker, facilitando o acompanhamento da história sem descaracterizar a franquia.
Muito Bom
Clive Barker’s Hellraiser: Revival é uma boa adaptação da franquia para os videogames, com excelente ambientação, direção de arte marcante e mecânicas criativas envolvendo a Caixa de LeMarchand. Apesar do combate corpo a corpo pouco refinado, das habilidades subutilizadas e dos problemas pontuais de áudio no PS5, o jogo entrega uma campanha envolvente e fiel ao universo de Clive Barker. A falta de um New Game Plus reduz a longevidade, mas não apaga os méritos da experiência, que vale a pena para fãs da franquia e apreciadores de jogos de terror e sobrevivência.
Pontos fortes
- Excelente ambientação e direção de arte.
- Cenobitas fiéis à identidade da franquia.
- Mecânicas criativas com a Caixa de LeMarchand.
- Bom gerenciamento de recursos.
Pontos fracos
- Combate corpo a corpo pouco refinado.
- Habilidades do Cubo subutilizadas.
- Falta de New Game Plus.
- Problemas pontuais de áudio no PS5.
Agradecemos à Saber Interactive por disponibilizar uma cópia de Clive Barker’s Hellraiser: Revival para PlayStation 5, que tornou esta análise possível.
