The Sinking City 2

The Sinking City 2 | Review

Arkham está afundando. A cidade foi tomada por enchentes repentinas, criaturas grotescas começaram a surgir entre ruas e prédios abandonados, e aqueles que permaneceram por lá passaram a testemunhar coisas que desafiam qualquer explicação. Em meio ao caos, Calvin tem apenas um objetivo: encontrar uma maneira de despertar Faye, o amor de sua vida, de um sono do qual ela simplesmente não consegue acordar.

É nesse cenário que The Sinking City 2 coloca a Frogwares diante de um desafio considerável. Conhecido principalmente pelos jogos de investigação da série Sherlock Holmes e pelo primeiro The Sinking City, o estúdio ucraniano decidiu mudar consideravelmente de direção e apostar em uma experiência muito mais próxima do survival horror.

A mudança é significativa. Salas seguras, inventário limitado, gerenciamento de recursos, ambientes repletos de caminhos bloqueados e a necessidade de revisitar determinadas áreas passam a fazer parte da rotina. O combate também assume um papel muito mais importante, exigindo que o jogador observe o comportamento das criaturas e escolha com cuidado quando atacar ou recuar.

Ao mesmo tempo, a Frogwares não abandona completamente aquilo que marcou seus trabalhos anteriores. A investigação continua presente na exploração de Arkham, seja por meio de documentos e pistas espalhados pelos cenários ou dos mistérios opcionais que podem ser descobertos durante a jornada. É justamente nessa combinação entre investigação e terror que The Sinking City 2 constrói sua identidade, enquanto tenta encontrar seu espaço em um gênero que já possui alguns dos maiores nomes da indústria.

Agradecemos à Frogwares pela disponibilização antecipada da chave de The Sinking City 2 para PlayStation 5, que nos permitiu jogar e analisar o título antes de seu lançamento. A confiança do estúdio em nosso trabalho foi fundamental para que pudéssemos preparar esta review com antecedência.

Uma cidade prestes a desaparecer

A cidade de The Sinking City 2

Três meses se passaram desde que Faye entrou em um sono profundo e nunca mais despertou. O problema é que Calvin não consegue lembrar exatamente o que aconteceu naquela noite.

Existe um vazio em suas memórias relacionado a um ritual realizado pelos dois durante uma de suas buscas por conhecimento oculto. Sem saber o que deu errado, ele decide recorrer novamente ao ocultismo para tentar encontrar uma resposta — e, principalmente, uma maneira de trazer Faye de volta.

A situação se torna ainda mais complicada porque Arkham está praticamente condenada. O oceano tomou conta de boa parte da cidade e uma evacuação está em andamento. Calvin, porém, não pretende partir. O livro que contém as palavras necessárias para realizar o ritual está na Universidade Miskatonic, obrigando-o a permanecer em um lugar que já deveria estar completamente abandonado.

É um ponto de partida simples, mas eficiente. A motivação do protagonista nunca fica perdida no meio da loucura que toma conta de Arkham. Existe uma razão clara para ele continuar avançando, mesmo quando cada novo local parece mais perigoso que o anterior.

A jornada passa por diferentes regiões da cidade, cada uma com sua própria identidade visual, desafios e criaturas. E é justamente na maneira como esses espaços são construídos que The Sinking City 2 encontra seu maior trunfo.

Investigação encontra o survival horror

The Sinking City 2 Calvin

A primeira grande área já deixa claro o caminho escolhido pela Frogwares. Arkham está parcialmente submersa e Calvin utiliza um barco para atravessar as ruas inundadas em direção à Universidade Miskatonic.

Naturalmente, chegar ao destino não significa simplesmente seguir em linha reta.

Uma comporta bloqueia o caminho, por exemplo, e o painel elétrico responsável por controlá-la está sem um fusível. A solução parece óbvia, mas o jogo não entrega o item de bandeja. É preciso explorar os arredores, entrar em prédios destruídos pelas enchentes e descobrir onde está o que você precisa.

Essa estrutura lembra bastante os remakes modernos de Resident Evil, principalmente na maneira como o mapa se transforma em uma espécie de quebra-cabeça. Salas e corredores são registrados conforme são explorados, enquanto áreas completamente investigadas mudam de aparência no mapa.

Chaves, dispositivos e outros objetos permitem acessar locais que antes estavam bloqueados. É aquele clássico ciclo de “não consigo passar por aqui agora, então talvez encontre a solução mais tarde”. A diferença é que a Frogwares combina essa estrutura com aquilo que sabe fazer melhor: investigação.

Ao explorar Arkham, você encontra cartas, documentos, diários e outros fragmentos de informação. Alguns servem apenas para ampliar a história e explicar melhor o que aconteceu naquele mundo. Outros fazem parte de investigações opcionais que podem ser montadas dentro de uma aba específica do jogo.

No nível de dificuldade padrão dos quebra-cabeças, o próprio jogo oferece algumas indicações sobre quais informações estão relacionadas. Na dificuldade mais alta, essas pistas desaparecem. Você precisa ler os documentos, interpretar as informações e descobrir por conta própria quais peças pertencem ao mesmo mistério.

Quando a conexão está correta, o jogo confirma sua dedução.

Pode parecer algo pequeno, mas esse sistema funciona muito bem porque transforma a exploração em algo mais do que uma busca por munição e itens de cura. Você está constantemente procurando alguma coisa que possa ter utilidade imediata ou que talvez só faça sentido vários minutos depois.

E vale a pena investigar.

As missões opcionais podem revelar novos detalhes sobre Arkham, apresentar pequenas cenas adicionais e, principalmente, oferecer recompensas realmente úteis. Há melhorias permanentes para armas, runas utilizadas no sistema de progressão e novos espaços para equipar talentos passivos.

Isso cria um incentivo muito natural para sair do caminho principal.

Explorar Arkham é a melhor parte

The Sinking City 2 Exploração a barco

A Frogwares acertou ao reduzir a escala das áreas em comparação com o primeiro The Sinking City.

Em vez de oferecer espaços enormes e relativamente abertos, The Sinking City 2 aposta em ambientes menores, porém muito mais densos. Cada local possui seus próprios elementos e desafios, e voltar para uma área antiga raramente parece simplesmente repetir o mesmo caminho.

O distrito alagado próximo à Universidade Miskatonic, por exemplo, utiliza o barco como parte importante da exploração. Já o hospital Memorial possui uma identidade completamente diferente, com portas que apresentam rostos humanos e uma atmosfera muito mais claustrofóbica.

Essas diferenças ajudam bastante a manter a aventura interessante.

O level design também é responsável por boa parte disso. Durante a exploração, o jogo introduz pequenos acontecimentos, novas informações, itens e obstáculos que fazem sentido dentro daquele ambiente. Muitas vezes você entra em um local procurando uma coisa específica e acaba encontrando três outras situações que despertam sua curiosidade.

É um tipo de exploração que recompensa o jogador por prestar atenção.

E talvez esse seja o ponto em que a experiência da Frogwares com jogos de investigação mais aparece. Mesmo quando The Sinking City 2 está seguindo uma estrutura familiar ao gênero, existe uma preocupação em fazer com que você realmente observe o cenário e tente entender o que está acontecendo.

A mistura de investigação com survival horror poderia ter sido apenas uma curiosidade interessante no papel. Na prática, ela se tornou uma das melhores características do jogo.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do combate.

Um combate interessante que nem sempre funciona

Combate em The Sinking City 2

Antes de entrar nos problemas do combate, vale reconhecer o quanto a Frogwares evoluiu nesse aspecto em relação ao primeiro jogo. The Sinking City 2 apresenta uma melhora expressiva tanto na movimentação de Calvin quanto na resposta dos inimigos aos ataques, tornando os confrontos muito mais dinâmicos e satisfatórios do que no antecessor. Ainda assim, é importante ajustar as expectativas: não espere aqui o mesmo nível de fluidez de um Resident Evil. A movimentação continua um pouco travada em determinados momentos, especialmente durante esquivas e mudanças rápidas de direção, e ainda há espaço considerável para o estúdio aprimorar essa parte da experiência.

Esse avanço também acompanha o salto técnico do projeto. The Sinking City 2 é um jogo muito mais ambicioso visualmente do que os trabalhos anteriores da Frogwares. As animações de Calvin são mais elaboradas, os inimigos apresentam boas reações aos disparos e a direção de arte consegue transformar uma Arkham devastada em um cenário convincente. A iluminação também merece destaque, assim como o design das criaturas, que possuem uma presença bastante marcante durante os confrontos.

Existe um cuidado evidente na maneira como esses monstros se movimentam e reagem aos ataques. Isso é particularmente importante porque o combate gira em torno de uma mecânica bastante interessante: os pontos fracos.

Alguns inimigos possuem áreas específicas do corpo que podem ser atingidas para causar dano adicional ou interromper seus ataques. Os humanos dominados pelos vermes, por exemplo, apresentam pontos vulneráveis que surgem durante seus movimentos.

O detalhe é que acertá-los não é tão simples quanto parece.

Esses inimigos possuem comportamentos imprevisíveis e podem reagir aos seus disparos. Um tiro direcionado para a cabeça pode ser evitado com um movimento brusco, enquanto outro ponto do corpo pode apresentar uma reação semelhante. Isso faz com que simplesmente manter a mira parada e disparar repetidamente nem sempre seja a melhor estratégia.

Outras criaturas seguem ideias diferentes.

Uma delas pode saltar diretamente sobre Calvin e, caso você consiga esquivar no momento certo, pode ser eliminada com um pisão. Outra abre o próprio rosto para lançar um projétil, criando uma pequena janela em que um disparo bem colocado causa um dano considerável.

É um sistema que recompensa observar o comportamento dos inimigos antes de simplesmente descarregar munição. Quando você entende os padrões e aprende a identificar essas oportunidades, os confrontos se tornam consideravelmente mais interessantes.

O problema aparece quando o jogo decide colocar vários deles no mesmo espaço.

Quando a câmera vira seu maior inimigo

The Sinking City 2 Combate

Na dificuldade difícil, The Sinking City 2 frequentemente transforma algumas arenas em confrontos bastante caóticos.

O problema não está necessariamente nos inimigos individualmente. O sistema funciona bem quando você consegue identificar cada ameaça e reagir de acordo com seus padrões. A situação muda completamente quando três ou quatro criaturas começam a atacar simultaneamente, principalmente em corredores e salas pequenas.

A câmera não ajuda.

Em ambientes fechados, é fácil perder completamente a noção de onde estão os inimigos. A esquiva também nem sempre oferece segurança suficiente contra ataques vindos de diferentes direções.

O resultado são momentos em que você acaba recebendo uma sequência de golpes e morre sem entender muito bem como a situação saiu do controle.

A própria Frogwares parece ter percebido esse problema. Em algumas sequências nas quais o jogador precisa sobreviver durante um determinado período, caixas de munição e recursos aparecem constantemente para ajudá-lo a lidar com a quantidade de inimigos.

Funciona como uma espécie de válvula de segurança, mas tem um efeito colateral: essas batalhas acabam ficando mais fáceis do que deveriam.

Não chega a comprometer a experiência inteira, principalmente porque o jogo apresenta uma boa variedade de inimigos e sabe introduzir novas ameaças ao longo da campanha. Ainda assim, é uma inconsistência que aparece várias vezes e impede que o combate alcance o mesmo nível de qualidade encontrado na exploração.

Uma aposta que deu certo

Minha campanha durou cerca de 10 horas, e saí dela com uma impressão bastante positiva.

A Frogwares tinha uma tarefa complicada nas mãos. O estúdio precisou pegar a identidade investigativa que marcou seus trabalhos anteriores e transformá-la em algo compatível com um gênero diferente. Em vez de simplesmente abandonar aquilo que sabe fazer, decidiu incorporar a investigação à estrutura de um survival horror.

Foi uma decisão acertada.

The Sinking City 2 não reinventa o gênero, e suas referências são bastante claras. A estrutura de exploração lembra Resident Evil, enquanto o terror lovecraftiano continua sendo fundamental para sua identidade. O diferencial está justamente na combinação desses elementos com a experiência da Frogwares em investigação.

O resultado é um jogo que funciona melhor quando deixa o jogador explorar, observar e montar suas próprias conclusões.

O combate poderia ser mais refinado, principalmente nos confrontos contra múltiplos inimigos, e a qualidade de imagem no modo Performance do PlayStation 5 poderia ser mais nítida. São problemas que merecem ser considerados, mas não anulam o que o estúdio conseguiu construir.

Também é impossível ignorar o contexto em que esse projeto foi desenvolvido. A Frogwares é um estúdio ucraniano que precisou trabalhar em meio a uma guerra, tornando ainda mais impressionante o salto de escala e produção apresentado aqui.

No fim, The Sinking City 2 é uma ótima estreia da Frogwares no survival horror. Não é perfeito, mas demonstra que o estúdio encontrou um caminho bastante promissor para sua próxima fase.

Se você gosta de terror, exploração e mistérios que recompensam a curiosidade, vale a pena mergulhar em Arkham.

E, depois de ver o que a Frogwares conseguiu fazer em sua primeira tentativa nesse gênero, fica difícil não ficar curioso para descobrir até onde o estúdio pode levar essa nova direção.

The Sinking City 2

Veredito Final

The Sinking City 2 é uma aposta ousada que funciona muito bem. A Frogwares aproveita sua experiência com investigação para criar uma exploração envolvente, com ótimo level design, mistérios interessantes e uma atmosfera lovecraftiana marcante. O combate evoluiu bastante em relação ao primeiro jogo, embora a movimentação ainda seja um pouco travada e os confrontos contra vários inimigos possam se tornar caóticos. Ainda assim, são limitações que não ofuscam o resultado: The Sinking City 2 é um excelente survival horror e mostra que a Frogwares encontrou uma direção bastante promissora para a série.

NOTA
8.7/10
Recomendado

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Jimmy Franklin

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